Atualizado em 20/08/26 - Escrito por Rafael Netto na(s) categoria(s): Processos e Organização
Quando uma indústria precisa produzir mais, uma das primeiras soluções que pode vir à mente é investir em novas máquinas. Porém, muitas vezes, a fábrica já possui capacidade para aumentar sua produção, o problema é que um gargalo produtivo está impedindo que essa capacidade seja aproveitada.
Identificar esse gargalo e atuar diretamente sobre ele pode ajudar a aumentar o lucro da fábrica sem exigir um grande investimento em novos equipamentos.
No vídeo abaixo, Rafael Netto, CEO e fundador da Nomus, explica como isso funciona e apresenta o caso de uma indústria que conseguiu aumentar significativamente sua capacidade produtiva atuando em apenas um centro de trabalho.
No exemplo apresentado no vídeo, uma indústria que fabricava sob encomenda conseguia entregar em aproximadamente 60 dias pedidos que seus clientes esperavam receber em 30.
Depois de estruturar seus roteiros de fabricação e analisar a capacidade dos centros de trabalho, foi identificado um único gargalo que restringia toda a operação.
A solução não foi comprar outra máquina.
A empresa aumentou a capacidade apenas daquele recurso e, segundo o caso relatado, conseguiu dobrar seu faturamento alguns meses depois.
Quer entender melhor por que isso aconteceu e como aplicar esse raciocínio na sua indústria? Continue a leitura.
Em uma linha de produção formada por diferentes etapas, máquinas e centros de trabalho, nem todos os recursos possuem a mesma capacidade.
Imagine uma fábrica com cinco etapas produtivas capazes de processar, respectivamente:
Mesmo que quatro etapas consigam processar 80, 90 ou 100 unidades, a fábrica como um todo não conseguirá manter esse ritmo.
A etapa capaz de processar apenas 50 unidades limita o fluxo.
Esse recurso é o gargalo da produção.
Na prática, isso significa que aumentar a capacidade de uma máquina que já consegue fabricar 100 unidades dificilmente fará a empresa produzir mais enquanto o gargalo continuar limitado a 50.
Por isso, uma das principais perguntas para quem deseja aumentar o lucro da fábrica é:
qual recurso está restringindo a produção neste momento?
De maneira simplificada, o lucro corresponde à diferença entre receitas e custos.
Portanto, existem dois caminhos básicos para melhorar esse resultado:
aumentar a receita ou reduzir os custos.
Atuar sobre o gargalo pode ser especialmente interessante porque permite aumentar a capacidade de produção sem necessariamente aumentar toda a estrutura da fábrica na mesma proporção.
Grande parte dos custos fixos da operação continuará existindo independentemente de a empresa produzir mais ou menos.
Se a indústria consegue aproveitar melhor seus recursos existentes para fabricar e entregar mais produtos, existe a possibilidade de elevar seu faturamento com um aumento proporcionalmente menor dos custos.
É diferente de simplesmente ampliar toda a fábrica sem saber onde realmente existe necessidade de capacidade adicional.
Quando os pedidos começam a atrasar ou a fábrica parece estar sobrecarregada, é comum relacionar imediatamente o problema à falta de capacidade produtiva.
A conclusão pode ser:
“Precisamos comprar mais máquinas.”
Mas qual máquina?
Sem responder corretamente a essa pergunta, a indústria corre o risco de fazer um investimento relevante e continuar enfrentando exatamente o mesmo problema.
Se determinada máquina já possui capacidade ociosa, aumentar ainda mais sua capacidade não fará necessariamente a fábrica entregar mais produtos.
Além do investimento inicial, um novo equipamento pode adicionar custos com:
Antes de ampliar a estrutura, portanto, é importante medir a carga e a capacidade de cada recurso produtivo.
Observar o chão de fábrica é importante, mas nem sempre é suficiente para descobrir o verdadeiro gargalo.
Uma máquina com muitas peças acumuladas à sua frente pode parecer um problema. Da mesma maneira, um recurso aparentemente tranquilo pode estar limitando toda a produção.
Uma forma mais estruturada de fazer essa análise é trabalhar com o planejamento de capacidade.
Para isso, primeiro é necessário conhecer como os produtos são fabricados.
Cada produto deve possuir um roteiro que represente as operações necessárias para sua fabricação.
Nesse roteiro podem estar informações como:
Ao relacionar essas informações às ordens de produção, a indústria consegue estimar quanto da capacidade de cada centro de trabalho será necessária para atender à demanda planejada.
O CRP (Capacity Requirements Planning, ou Planejamento das Necessidades de Capacidade) permite comparar a carga necessária com a capacidade disponível dos recursos produtivos.
Assim, é possível visualizar quanto cada centro de trabalho precisará trabalhar para atender às ordens planejadas.
Se praticamente todos os centros possuem aproximadamente 30 dias de carga, mas determinado recurso possui 60 dias, existe um forte indicativo de que ele seja o gargalo da operação.
É justamente nesse ponto que os esforços de melhoria devem ser concentrados.
No vídeo, Rafael Netto apresenta o caso de uma indústria que fabrica sob encomenda e utiliza o Nomus ERP Industrial.
Os clientes dessa empresa desejavam receber seus pedidos em aproximadamente 30 dias.
Na prática, porém, a indústria costumava realizar as entregas em cerca de 60 dias.
Para demonstrar o impacto dessa situação, Rafael utiliza um exemplo com valores hipotéticos.
Imagine que a carteira de pedidos dessa indústria seja de R$ 2 milhões.
Se ela leva dois meses para concluir essa carteira, estará faturando, em média, R$ 1 milhão por mês nesse período.
Caso consiga produzir e entregar os mesmos R$ 2 milhões em apenas um mês, havendo demanda suficiente para manter esse ritmo, seu potencial de faturamento aumenta significativamente.
A grande questão era descobrir por que a fábrica precisava de 60 dias para atender uma demanda que deveria ser entregue em 30.
Para investigar o problema, a indústria estruturou os roteiros de fabricação de seus produtos.
As ordens de produção passaram a contar com informações sobre:
Com essa base estruturada, foi possível executar o CRP.
O resultado mostrou uma diferença bastante evidente.
Enquanto a maior parte dos centros de trabalho possuía aproximadamente 25 ou 30 dias de ocupação, um centro específico apresentava cerca de 60 dias.
Ou seja: não era toda a fábrica que precisava dobrar sua capacidade.
Um único centro de trabalho estava limitando o restante da operação.
Um dos pontos mais interessantes do caso é que esse centro de trabalho não parecia problemático quando observado no chão de fábrica.
Não havia um grande volume de peças acumuladas aguardando processamento.
Uma análise mais aprofundada mostrou o motivo.
Os operadores das etapas anteriores já haviam percebido informalmente que aquele recurso não conseguia acompanhar a produção.
Por isso, passaram a trabalhar em velocidades inferiores às normais.
Caso produzissem em sua capacidade máxima, criariam um grande estoque em processo antes do gargalo e aumentariam a pressão sobre os operadores daquele centro de trabalho.
Ou seja, o restante da fábrica havia se adaptado ao gargalo.
A limitação continuava existindo, mas seus sinais visuais haviam sido reduzidos pela própria dinâmica da operação.
É um exemplo de como dados de planejamento e capacidade podem revelar problemas que não são evidentes apenas pela observação.
Depois de identificar o recurso que limitava a produção, a recomendação foi aumentar especificamente sua capacidade.
Nesse caso, o centro de trabalho possuía duas máquinas.
Em vez de comprar equipamentos adicionais, a empresa foi orientada a testar um turno extra de produção somente naquele centro de trabalho.
Inicialmente, houve resistência.
Criar um novo turno significaria elevar determinados custos e enfrentar questões operacionais relacionadas ao funcionamento durante a madrugada.
Por outro lado, os dados indicavam que aquele recurso era justamente o ponto que impedia a fábrica de produzir mais.
Por isso, fazia sentido aumentar sua capacidade antes de considerar um investimento maior em equipamentos.
Ao decidir criar o turno adicional, surgiu outra possibilidade: já que haveria uma estrutura funcionando durante a madrugada, por que não operar também as demais máquinas?
A ideia parece intuitiva.
Mas existe um problema.
As outras máquinas já tinham capacidade suficiente para atender à demanda.
Criar turnos adicionais nesses recursos poderia aumentar:
Sem necessariamente aumentar o volume de produtos acabados.
Isso acontece porque a produção continuaria limitada pelo mesmo recurso gargalo.
Em outras palavras:
aumentar a capacidade de um recurso que não restringe a produção pode aumentar custos sem aumentar o faturamento.
Segundo o caso apresentado no vídeo, depois da implantação dessa iniciativa, a indústria conseguiu dobrar seu faturamento sem comprar uma nova máquina.
A mudança principal foi concentrar o aumento de capacidade justamente no recurso que restringia o restante da fábrica.
Isso não significa, evidentemente, que toda indústria conseguirá dobrar seu faturamento simplesmente adicionando um turno.
O ensinamento do caso é outro:
antes de investir para aumentar a capacidade da fábrica, descubra exatamente onde está a restrição.
Dependendo do gargalo identificado, algumas ações possíveis podem ser:
A decisão de investimento deve vir depois do diagnóstico.
A experiência apresentada permite resumir o processo em algumas etapas.
Mapeie como cada produto percorre a fábrica e quais recursos são utilizados em cada operação.
Conheça quanto tempo cada operação deveria consumir.
Essas informações serão fundamentais para calcular a necessidade de capacidade.
As ordens indicam o que precisa ser fabricado e permitem calcular quais recursos serão demandados.
Analise quanto trabalho cada centro de trabalho precisa executar em comparação com a capacidade que realmente possui.
Procure o recurso com maior ocupação ou aquele que está restringindo o fluxo produtivo.
Antes de aumentar a estrutura como um todo, procure maneiras de elevar a capacidade do gargalo.
Depois que um gargalo é resolvido, outro recurso pode passar a representar a principal limitação.
Por isso, a gestão de gargalos deve ser um processo contínuo.
Esse tipo de análise exige que a indústria conecte diferentes informações da produção.
É necessário saber:
Quando essas informações estão espalhadas entre planilhas, controles paralelos e conhecimento individual dos colaboradores, identificar gargalos se torna mais difícil.
No Nomus ERP Industrial, as ordens de produção podem ser relacionadas aos roteiros de fabricação, operações, centros de trabalho e tempos planejados.
A partir dessas informações, ferramentas como o CRP e a programação da produção ajudam a analisar a carga dos recursos e sua capacidade disponível.
Com isso, o gestor consegue direcionar suas ações para os pontos que realmente estão restringindo a fábrica.
Aumentar o lucro da fábrica não significa necessariamente ampliar o galpão, comprar equipamentos ou aumentar todos os recursos produtivos.
Em algumas situações, o potencial de crescimento já está dentro da operação.
O desafio é identificar qual ponto está impedindo esse potencial de aparecer.
O caso apresentado no vídeo mostra como um único centro de trabalho pode limitar toda a produção e como atuar especificamente sobre essa restrição pode gerar um impacto muito maior do que aumentar indiscriminadamente a capacidade da fábrica.
Por isso, antes de perguntar:
“Qual máquina precisamos comprar?”
vale responder primeiro:
“Qual gargalo está impedindo nossa fábrica de produzir mais?”
Essa resposta pode ajudar a direcionar melhor os investimentos, melhorar o aproveitamento dos recursos existentes e, consequentemente, aumentar o lucro da fábrica.
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Engenheiro de Produção formado na UFRJ com especializações nas áreas de gestão estratégica, custos, financeira, fiscal e de projetos de software. CEO e fundador da Nomus. Rafael tem mais de 20 anos de experiência como gestor nas áreas de Estratégia, Desenvolvimento de software, Suporte, Implantação, Financeiro, Recursos Humanos, e com implantação de sistemas de PCP e ERP em fábricas de diversos setores, como Alimentos, Metal/mecânico, Plástico, Químico, Farmacêutico, Gráfico, Equipamentos, Náutico, entre outros.
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