“A gente não é bobo”, entenda porque investir em gestão na crise

Atualizado em 14/06/18 - Escrito por Thiago Leão na(s) categoria(s): Custos e Finanças / Estratégia / Produção

Eu já estava a algum tempo ensaiando um post sobre a conjuntura econômica e sua relação com os investimentos em gestão da produção. No início da semana passada, pedi para o Luiz Eduardo, um experiente economista que conheço há muitos anos, escrever suas impressões sobre este tema. Agora irei comentá-las e compartilha-las aqui.

Antes, entretanto, acho pertinente fazer referência a uma matéria do Valor da sexta-feira passada, dia 20 de março, em que o presidente da Coca-Cola no Brasil,  Xiemar Zarazúa declara o seguinte:

“A gente não é bobo. A crise é a grande oportunidade para sairmos fortalecidos, porque nem todas as empresas têm vontade de investir”.

Confira a chamada da matéria no site do Valor:

Coca-Cola prevê ano muito difícil, mas investe

A Coca-Cola em meados do ano passado já projetava um cenário “muito complexo” para a economia brasileira. Mas em vez de optar por cautela, a multinacional e suas engarrafadoras definiram para 2015 um investimento inédito no país. Serão R$ 2,7 bilhões, como já anunciado pela empresa. Este valor é 50% maior do que Xiemar Zarazúa, que assumiu a presidência da subsidiária brasileira em outubro de 2008, vinha investindo a cada ano no país.

A sua empresa não precisa ser uma Coca-Cola para investir na crise

linha de producao da cocacola

Realmente, não só as cifras citadas acima são inimagináveis para a imensa e esmagadora maioria das indústrias, como também a própria estratégia de aproveitamento da crise para ampliar a capacidade de produção só é viável para pouquíssimas empresas. Por isso, ao invés de investir em publicidade, ampliação de capacidade, estoques etc., provavelmente o mais indicado para a sua indústria seja investir em gestão da produção, PCP, PPCP, etc.

Por quê? Porque o impacto que o aumento da produtividade de uma indústria provoca no seu lucro é brutal, conforme mostro neste vídeo e o Rômulo descreve no excelente post Descubra o impacto da produtividade no seu lucro. Além disso, recomendo também que leia um artigo em que, com alguns exemplos, ajudo a esclarecer uma dúvida comum dos empresários e executivos industriais: Investir para aumentar a capacidade ou em gestão para melhorar a utilização da capacidade?

Vamos então recorrer ao apoio do especialista que citei acima.

Como as decisões de investimento variam ao longo dos ciclos econômicos

Estamos vivendo um momento de insegurança em relação às perspectivas econômicas para o futuro próximo. Os esforços do governo para estimular a demanda interna num cenário de recessão internacional e de redução do ritmo de crescimento da China parecem ter chegado a um limite. A palavra de ordem, nesse momento, é austeridade fiscal. O objetivo é recuperar o fôlego para voltarmos logo a ter condições de acelerar o passo.  

Essas oscilações do nível da atividade econômica, sejam elas provenientes dos próprios movimentos do setor privado, ou de alterações nas políticas governamentais, às vezes mais expansionistas, outras vezes, como agora, mais restritivas, levam necessariamente a modificações na forma com que um empresário deve encarar suas decisões de investimento.

Decisões comuns em momentos de crescimento econômico

Numa conjuntura de ascensão, com a demanda em crescimento, os esforços se voltam para o aproveitamento da maré favorável, não apenas em razão da possibilidade de realização de maiores lucros, mas também pela necessidade de não ficar atrás na corrida travada com a concorrência. Pois, de fato, um dos maiores pecados num momento de crescimento do bolo é perder participação no mercado, ver sua fatia não crescer tanto quanto aquelas que seus concorrentes estão conseguindo abocanhar.   

Num clima como esse, aproveitar a maré favorável significa, antes de mais nada, ser capaz de aumentar a produção. Em segundo lugar, ser capaz de fazê-la chegar em tempo hábil à clientela. Em terceiro, manter preços competitivos. Em quarto, inovar na frente da concorrência ou acompanhá-la de perto…

É claro que a agenda concreta de cada empresário, e suas prioridades, irão depender da situação específica dos seus mercados, da concorrência, do seu momento particular, etc. Mas ela certamente estará voltada para estratégias de expansão: mais equipamentos? mais trabalhadores? mais pesquisa? mais marketing? As preocupações com a eficiência do negócio, com as possibilidades de melhoria na gestão, acabam ficando, compreensivelmente, num segundo plano. Pois, se os lucros estão crescendo, se o market share está, no mínimo, sendo preservado, essas “prioridades”… podem esperar!

Como ficam as decisões de investimento em períodos de recessão

Outra, contudo, é a situação numa conjuntura de encolhimento, de descenso do nível da atividade econômica. Pois, embora a expansão da própria demanda e da fatia de mercado – a despeito de contexto desfavorável – continuem sendo parâmetros de orientação da conduta empresarial, a pressão da realidade impõe a necessidade de encarar alguns dos desafios que haviam sido colocados de lado na fase de ascensão do ciclo. Os olhos se voltam para outros fronts, para o “outro lado da moeda”.

De fato, se a expansão das vendas e da produção é um dos lados da moeda chamada aumento dos lucros, o outro lado é a redução dos custos. E é esse lado que passa insistentemente a chamar a atenção do empresário quando a conjuntura deixa de se apresentar tão favoravelmente como antes. Pois é no aumento da eficiência na utilização dos recursos utilizados, dos equipamentos, instalações, matérias primas, estoques, mão de obra …, no aumento da produtividade específica e geral desses recursos, que o empresário pode encontrar estratégias mais seguramente exitosas para fazer frente às dificuldades trazidas pela reversão conjuntural do cenário macroeconômico.

E as conquistas trazidas por essas estratégias não limitam seus frutos ao período de dificuldades com a demanda. Se bem trabalhadas, elas se transformam em conquistas definitivas, com potencial para elevar a competitividade da empresa a um novo patamar, colocando-a em condições de disputar a concorrência e alcançar uma dinâmica de expansão insuspeitada quando do retorno da fase de ascensão do ciclo. E essa nova fase de ascensão pode estar logo ali, em 2016. A hora é essa.

Reclamar ou trabalhar, a escolha é sua

Como vimos acima, a economia tem um caráter cíclico, ou seja, períodos de expansão são alternados com períodos de retração.  Um grande consultor internacional que conheci há 2 anos e meio, aqui no Brasil, me disse que quando aplicava programas de aumento de produtividade na Europa no auge de sua crise, muitas vezes ficava com o coração partido e os olhos cheios de lágrimas, uma vez que seu trabalho às vezes levava à demissão de 10% a 20% dos quadros de uma indústria, ao mesmo  tempo em que a produção total era mantida. Dizia ele que, não fossem os ganhos obtidos com as melhorias em gestão, 100% dos empregos deixariam de existir, pois a fábrica precisaria ser fechada.

Portanto, o momento é muito propício para trabalhar pesado e investir em gestão, para que a sua indústria reduza custos da maneira certa e consiga atravessar a crise sem sobressaltos. Você está preparado? Precisa de ajuda? Ou vai preferir reclamar e ver os problemas aparecerem e aumentarem cada vez mais? Tenho certeza que você não é bobo ou boba…

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Engenheiro Mecânico Industrial formado na UERJ e especialista em implantação de sistemas de gestão Industrial na Nomus. Thiago já atuou em fábricas de diversos setores, como: Embarcações, perfuração submarina, metal-mecânica, materiais de escritório, alimentício, cosméticos e tubulação.


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